Dia Internacional do Livro

Em tempos de cerceamento de direitos, de discussões acerca do que deve ou não ser ensinado nas escolas e que nosso Ministério da Educação encontra-se imerso em uma nebulosa, talvez, comemorar o dia Internacional do livro (23/04) seja quase um disparate. Eu vejo como resistência.A comemoração que se originou na Catalunha (Espanha), de 1926 a 1929, era celebrada em 05 de abril, para festejar o nascimento do escritor  Miguel de Cervantes. Mas em 1930, foi alterada para 23 de abril, dia do falecimento de Cervantes e Willian Shakespeare.1995 foi o ano em que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) instituiu em 23 de abril o “Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor”.Além de estimular a leitura e suas reflexões, a data pressupõe debates sobre a indústria literária e a propriedade intelectual dos autores.Como autora de textos acadêmicos e literários, reflito, principalmente sobre nossos próximos passos. Há um grande número de editoras independentes, de escritores de boa cepa e de leitores teimosos que garimpam o novo pelas prateleiras das livrarias, mas pouco são os incentivos de leitura dessa nova safra.Insistem em nos recomendar os clássicos autores de sempre muito valorosos, claro! Em minha biblioteca não faltam Machado, Kafka, Drummond, Gorki, Quintana, mas e os novos?E os poetas de rua? Juiz de Fora, infelizmente, não conta com poetas de rua como o Rio de Janeiro, por exemplo. Os novos escritores formam seus grupos de leituras, saraus mais ou menos públicos, divulgam, como podem, sua arte.Lembro-me bem do dia em que conheci um poeta de rua no Rio, o Rômulo Pherreira. Troquei uns 5 cinco reais por um ou dois zines dele. Autografados pelo ilustre desconhecido. Dei-lhe um poema meu. Nasceu ali uma amizade e uma parceria: perdi as contas de quantos poemas meus foram publicados de forma independente, sem ganhos, só para custear o fabrico do livreto e deixar a poesia fluir. Isso é a resistência da arte. Hoje, o querido amigo ministra oficinas de zines para crianças em Ouro Preto e segue cuidando de seu selo editorial. Ele é resistência. Outro amigo, editor independente, organiza concursos literários, em Belford Roxo (RJ), cujos candidatos são talentosos ao extremo. Ele é periferia. Ele é resistência. Coincidência ou não, para os brasileiros, além do dia Internacional do Livro, hoje é dia de São Jorge, de Ogum, do Santo Guerreiro. Ele é luta. Ele é resistência.Como D. Quixote em seu cavalo, ganhando o mundo, que Jorge, que Ogum, nos invistam de suas coragens, suas forças e nos permitam ser fortes na defesa do livro, da literatura, dos saberes. Que nossas palavras sejam encantamento, espanto e descoberta e que, de fato, possamos comemorar um Dia do Livro orgulhosos de nossos clássicos, de nossas novas safras de escritores, de nossos poetas marginais. Que, um dia, nossa festa pelo livro seja tamanha que ao menor sinal de desmonte de nossa Cultura e Educação possamos reagir, cientes de que estamos sendo feridos. Por ora, somos um coro de descontentes, um tanto de combatentes e um país inteiro agonizante.

Dy (Edylane) Eiterer é historiadora (UFJF), especialista em gestão de Patrimônio Cultural (Instituto Metodista Granbery), mestra em Educação Patrimonial (UFF), consultora em Patrimônio Cultural e pesquisas de campo sobre impactos culturais, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora (IHG/JF), empresária no setor de café e comidas árabes (Berbere Café e Cerveja), poeta, bailarina e mãe de Heitor.

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