Contradições históricas… E agora?

Opinião: ”UMA FAXINA CULTURAL GAY”

Kláus Lovengsthy

A mutilação da longa história das lutas pela libertação homossexual relaciona-se diretamente com afirmações ilegítimas de que o ‘’começo’’ do movimento gay ocorreu em 1969, depois dos motins no bar Stonewall Inn, e se apoia nas reivindicações de natureza ideológica presente nas narrativas de tais motins. Essa natureza ideológica se torna visível a partir da construção de elementos fantasiosos e enviesados que são adicionados ao relato histórico.

Sintomaticamente é comum a crença de que determinado personagem ” começou a rebelião”; dependendo do ponto de vista dos grupos de interesse da reivindicação, somos informados que pode ter sido Marsha Johnson, Sylvia Rivera ou Stormé DeLarverie. Entretanto, nenhuma das três personalidades citadas assumiu que “deu início aos motins’”: Marsha revela em entrevista nos anos 70 que ao chegar ao bar, os distúrbios já haviam começado; Sylvia negou que ela teria ‘’lançado o primeiro tijolo’’.

David Carter, historiador dos motins, não encontrou nenhuma evidência da presença de Sylvia Rivera na primeira noite, nem corroborou os relatos sobre Stormé DeLarverie. Na opinião de Carter, tudo indica que ‘’o começo’’dos motins é uma manifestação espontânea e coletiva, principalmente de jovens gays afeminados de rua.

É cada vez mais patente para os que se debruçam sobre a história da rebelião de 1969 que essa foi apenas a expressão de amadurecimento de um movimento que se apoiava em vários anos anteriores de lutas e engajamento político.Porém , os leigos e os ativistas, por ignorância ou desonestidade, desautorizam a verdade histórica em benefício da farsa, reportando-se ao “começo do movimento LGBT” (que em algum ponto de 1988 deixou de ser “homossexual”) em conexão com os eventos de 1969. De acordo com o colunista Tony Goes, por exemplo, o “ativismo pra valer” só começou nesses motins; e em um inequívoco desprezo pelas lutas anteriores, aprioristicamente afirmou que “aquele movimento antigo era um movimento secreto, restrito a um círculo pequeno”.

Em outra ocasião, ele escreveu que “o movimento negro e o movimento feminista existem desde o século 19, mas o movimento gay foi uma novidade de 1969”. Não obstante tanto esforço para negar e apagar a história contínua das lutas da comunidade homossexual, os fatos teimam em permanecer, dado que há registros autênticos deles.

O moderno movimento gay começou na Alemanha, em meados do século XIX, com os esforços de Karl Heinrich Ulrichs, cujas ideias influenciaram homens homossexuais tanto na Europa quanto na América; seus livros foram traduzidos e vendidos em livrarias de algumas cidades americanas, e uma peça da atriz Mae West na década de 20 mencionou o trabalho dele.

O primeiro grupo de defesa dos direitos gays (Comitê Científico Humanitário) surgiu em 1897; no auge o grupo contava com 500 membros e ramificações em 25 cidades alemãs, além de ter se expandido para a Suíça, Holanda e Áustria. Esse grupo realizava petições, palestras, viagens internacionais e comícios. Em 1909, enviou delegados a Nova York, e Emma Goldman, anarquista que defendeu os homossexuais em palestras na América, trocava correspondências com os seus ativistas.

No ano de 1910, o Comitê Científico Humanitário bloqueou uma tentativa de criminalização da lesbianidade pelo parlamento alemão; em 1919, em parceria com o ativista gay e médico Magnus Hirschfeld, realizou-se o primeiro filme no mundo a abordar o lobby da libertação gay; “Diferente dos Outros” (“Anders Als Die Andern”) foi exibido durante um ano na Alemanha e na Holanda; no ano seguinte os conservadores conseguiram aprovar dispositivos legais para proibir sua exibição, que ficou restrita.

Naquele período, na década de 20, apesar disso, em Berlim havia mais revistas, bares e cafés especificamente gays que em Nova York dos anos 60; além do Comitê Científico Humanitário e do grupo de Adolf Brand, apareceu ainda uma coalizão de massa, a “Federação dos Direitos Humanos”, do empresário Friedrich Radszuweit, que contava com 100 mil afiliados empenhados em derrubar o parágrafo 175.

A Berlim de Weimar era internacionalmente conhecida pela sua liberalidade na questão homossexual, e foram vários os intelectuais gays que migraram para lá, tais como o escritor Christopher Isherwood, cuja obra sofreu forte impacto da experiência homoerótica vivenciada pelo autor na Alemanha.

Diretamente inspirado pelo movimento gay alemão, o imigrante Henry Gerber fundou em Chicago, em dezembro de 1924, a Sociedade de Direitos Humanos, primeiro grupo gay nas Américas, presidido por um homem afro americano, John T. Graves. O grupo de Chicago foi atacado e destruído pela polícia alguns meses depois de ter sido criado; na década seguinte, Harry Hay ouviu falar dele através de um amigo que conheceu um dos fundadores; essa ideia de “um grupo de defesa de direitos homossexuais” infiltrou-se em sua mente e foi responsável pela criação da Sociedade de Matachine em 1950.

Ao longo dos anos 50 e 60 o ativismo homossexual floresceu nos EUA, e os piquetes, Sit-in, protestos, entrevistas e ações na justiça se multiplicaram; em 1967 o grupo PRIDE reuniu 200 manifestantes contra a violência policial em Los Angeles. O Orgulho NÃO começou em Stonewall, e o ativismo anterior foi pra valer sim. Tanto é que resultou nos motins de 1969, nas paradas do orgulho dos anos seguintes e na consciência política da atualidade.

Fontes: Wikipédia / Resistência Gay

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: